É provável que você saiba do que se trata e reconheça os sinais característicos de quem é acometido por essa patologia. Mas a síndrome de FOMO, ou Fear of Missing Out, é um distúrbio psicológico que surge no indivíduo pelo simples medo de estar perdendo os últimos updates do mundo à sua volta. Um testezinho rápido aqui: se você não consegue ficar 5 minutos sem passar o olho no whatsapp, ou volta e meia você pega no sono com o celular em punho, é bem provável que entre você e a FOMO tenha dado match, assim como aconteceu comigo.

Especialistas, no caso psicólogos, afirmam que os principais indicadores estão correlacionados: a ansiedade, o estresse e burnout, tudo junto e misturado. Este último, burnout, é quando você acha que o seu trabalho renderá mais que uma boa noite de sono, a famosa exaustão.

Sem entrar no mérito sobre o desencadear psicológico dos seus efeitos, mesmo que eu buscasse uma fonte super confiável para autenticar minhas palavras, ainda assim poderia prevalecer a ideia de que os sinais precisam despontar amontoados na nossa frente para que a gente se dê por conta que sofre disso. Mas o fato é que essa sensação de estar perdendo alguma coisa só aumenta à medida que nos esforçamos para estar sempre a par de tudo, enquanto as informações passam voando por nós.

  • Antes do Lockdown

Antes de o Covid ter chegado para ficar, os termos “inovação”, “mindset” e, claro, “startup” circulavam com uma generosa parcela de excesso, e por alguma razão estavam presentes na boca de gente que, sei lá, mais parecia estar preocupada em se mostrar descolada e conectada, do que de fato interessada no assunto. Talvez esse senso de obrigatoriedade tenha origem na necessidade mais básica da conexão humana, que é o sentimento de pertencimento. Lá na década de 70 já se falava nisso: o psicanalista Heinz Kohut desenvolveu a “psicologia do self”, afirmando que o “ato de pertencer” revela a sensação de ser um “humano entre seres humanos”. É como observar de longe aquela festa para a qual você não foi convidado, mas você queria estar lá porque todo mundo que você conhece publicou #sextou.

No final de 2019 tive a oportunidade de conhecer o Felipe Lamounier, um dos sócios da StartSe, eleita no mesmo ano a décima segunda startup numa lista de 25 elaborada pelo LinkedIn, a única empresa de educação na lista. Na ocasião, ele palestrou para membros de um clube de inovação conhecido em Porto Alegre como Innovation Club, que até então costumava reunir os membros uma vez por mês para flertar com os principais highlights sobre inovação, além de colocar em prática o velho networking. Era um jeito de subsidiar a nossa atenção para pessoas que, assim como o Lamounier, carregam credenciais indiscutíveis.

Boa parte dos que estavam presentes já ultrapassaram com folga a faixa dos 35 anos, e possivelmente dividem parte da reflexão que fiz quando me senti à deriva, sem saber para onde o vento me levaria num espaço muito curto de tempo, a julgar por duas informações simples, irrevogáveis e completamente distintas das décadas anteriores.

  1. Airbnb, Uber e Wework, por exemplo, alguns anos atrás sequer existiam e hoje gozam da titulação de unicórnios.
  2. Um estudo realizado no Vale do Silício aponta que em 5 anos, 70% de absolutamente tudo que conhecemos será menos relevante.

Tudo isso aconteceu e acontecerá num piscar de olhos, e mesmo que você já tenha consciência de que precisa levar uma vida no maior estilo Lifelong Learning, nada vai lhe garantir o sossego de que está aprendendo com o canal certo e principalmente no tempo certo. É a síndrome de FOMO assombrando as nossas vidas.

  • Muito antes do Lockdown

Na década de 90, a sensação de estar perdendo alguma coisa penso que só tinha chance de existir se você fosse preso e, ainda assim, um rádio poderia ser o seu informante. As coisas aconteciam numa velocidade controlada e se você quisesse manter-se atualizado bastava acompanhar o noticiário nos mesmos bat horários que todo mundo e pronto; os top trends do dia, as fofocas dos famosos, tudo estaria na ponta da língua e na timeline das bancas de revistas e jornais. Como sabemos, o hábito da leitura nunca foi o nosso forte, e aqueles mais estudiosos rotulados de inteligentes não despertavam a inveja alheia, porque as experiências deles ficavam circunscritas numa roda específica de pessoas que ninguém fazia muita questão de fazer parte porque não era nada popular.

Ter conhecimento nessa época dava muito trabalho, o que hoje está na palma da nossa mão exigia esforço e disciplina; enquanto uma notícia fica velha em 12 horas, o lançamento da banda No Doubt com Don´t Speak de 1995 precisava passar pelo rádio antes de soar em nossos ouvidos, muitas vezes, um mês depois do seu lançamento oficial.

O personagem Dado interpretado por Claudio Heinch na série Malhação, que popularizou a frase “Bonito isso, eu li no livro”, naquele mesmo ano diz muito de como o conteúdo rico era distribuído, demandava uma articulação muito diferente, como ir à biblioteca por exemplo. O que impressiona é que ao contrário da geração Z, as gerações anteriores parecem ter adquirido uma espécie de anticorpo capaz de reciclar muito do que circula por aí, tornando a nossa rotina bem mais mastigável, não menos assustadora.

  • E agora?

E depois que o mundo parar de falar de pandemia? Bom, é provável que o nosso cérebro volte a ser bombardeado com informações que a gente vai achar que é bom saber, quando na verdade não passa de intoxicação digital, causadora de síndromes. Como foi ao longo do #fiqueemcasa. Bilhões de lives para todos os tipos e gostos exóticos. O fato é que estamos diante de um caminho sem volta, e no permanente combate de uma luta que dificilmente será vencida.

Estresse, ansiedade, burnout sempre vão rodear nossas rotinas, mas certamente podem ser controladas. Gosto desta palavra porque se opõe ao “não pode vencê-lo, junte-se a ele”. Nem sempre é assim, precisamos estar dispostos a direcionar nossas energias para coisas úteis, principalmente para situações em que temos maior controle. Não quero encerrar com uma mensagem pessimista, mas jogaria todas as minhas fichas de que FOMO é como o Covid, volta e meia vai nos derrotar e isso não é ruim. Se a gente não souber lidar com a derrota, jamais vamos saber lidar com a vitória.

 

Douglas Antunes

Sócio da Paes Digital